Uma das principais causas do fechamento de micro e pequenas
empresas é a falta de planejamento financeiro. Normalmente, como o
dinheiro para a abertura costuma ser do próprio dono, a tentação de usar
uma única conta corrente é grande. Daí, para misturar os recursos
pessoais com os da empresa é um pulo.
Quando o empresário não separa a conta física da jurídica, ele
perde o controle financeiro do negócio. Não sabe o quanto tem para pagar
fornecedores, funcionários e demais despesas ou quanto poderia
reinvestir no negócio. Pior, ele não consegue fazer a leitura correta de
custos e receitas, o que pode levá-lo a determinar um preço de venda
fora da realidade.
A artesã Letícia Brito deixou as contas de lado na correria da
abertura do Ateliê Brito, especializado em brinquedos de pano, em Campo
Grande (MS). Quando os pedidos começaram a chegar, as finanças se
descontrolaram. "Como só tinha uma conta no banco, virou uma bagunça.
Não tinha controle de quanto havia entrado e saído, se era dinheiro meu
ou da empresa e o saldo ficou negativo."
Ainda assim, demorou mais um pouco para tomar providências
administrativas fundamentais, por causa da sobrecarga de trabalho. "Até
que não deu mais. Procurei capacitação no Sebrae e contratei um bom
contador. Mesmo assim, o saldo ficou negativo novamente, mas, da última
vez, a empresa já conseguiu se recuperar sem que eu tivesse de investir
mais reservas pessoais."
Solução é simples: fixar o pró-labore
Para o João Paulo Cavalcante, consultor de finanças do Sebrae-SP,
serviço de apoio à pequena empresa, o erro é clássico. "Com apenas uma
conta bancária, é infrigido o princípio contábil da entidade, que obriga
a separação de receitas e gastos das pessoas jurídica e física. Nesse
caso, o contador pode ser até advertido pelo Conselho Regional de
Contabilidade."
Mas o descontrole pode ser resolvido com a adoção de regras simples
como fixar o pró-labore. Segundo o consultor, pró-labore é a
remuneração paga ao sócio que, além de ter investido dinheiro na
abertura do negócio, trabalha no mesmo.
Calcule a média entre necessidades pessoais e salário de mercado
O cálculo do pró-labore deve seguir duas etapas. Primeiro, o dono
do negócio precisa relacionar suas depesas pessoais. O objetivo é
descobrir qual o valor médio mensal necessário para sua sobreviência. "É
interessante fazer uma média anual, porque há gastos que ocorrem apenas
em determinados períodos do ano, como com material escolar dos filhos",
diz Cavalcante.
O segundo passo é, depois de definida a função do sócio na empresa,
pesquisar o valor do salário pago no mercado para as atribuições que
ele desempenha na empresa. Nesse estágio, vale consultar empresas de
recrutamento e seleção e jornais que informam os valores médios de
salários, de acordo com o cargo.
O pró-labore deve ser a média entre o valor que o sócio ou dono do
negócio precisa para se manter e o que é pago pelo mercado para o cargo
que ele ocupa.
No início, dono pode ter de abrir mão de salário
No entanto, no início, a capacidade financeira da empresa pode não
satisfazer às necessidades do dono. "Nem sempre, principalmente nos
primeiros anos, a pessoa jurídica tem condições de pagar à pessoa física
aquilo que ela acha justo por seu trabalho", afirma Lima.
Nesses casos, o dono tem de ser flexível e abrir mão de parte do
que queria receber para não onerar muito o negócio, recomenda Lima. "A
retirada deve satisfazer às necessidades do empreendedor, mas não pode
comprometer a saúde financeira da empresa."
Essa percepção possibilitou à Rafaela Andrade, dona da marca
homônima de acessórios femininos em São José (SC), migrar da condição de
empreendedora individual para microempresa com foco na saúde financeira
do negócio.
"Sempre tive os custos na palma da mão, mas a venda de bijuterias é
muito sazonal. Por isso, achei melhor fixar o pró-labore como um
percentual sobre o faturamento. Ainda assim, no começo, houve vários
meses em que não recebi, porque minha meta era a continuidade da
empresa."
FONTE: Portal UOL Economia
Kelly S. Osman